A TRAJETÓRIA DO FLAMENGO E A LUTA CONTRA O RACISMO
THE TRAJECTORY OF FLAMENGO AND THE FIGHT AGAINST RACISM
Kaio José Silva Maluf Franco
RESUMO
O artigo aborda o racismo como fenômeno estrutural manifestado no futebol e no ambiente escolar, com ênfase na trajetória do Clube de Regatas do Flamengo e na percepção de alunos sobre o tema. A pesquisa busca responder como essas dinâmicas impactam as relações sociais e quais estratégias podem ser empregadas para enfrentá-las. O objetivo principal é analisar as manifestações de racismo nesses contextos, destacando o papel do esporte e da educação na promoção da igualdade e da inclusão. O estudo utiliza uma abordagem qualitativa, baseada em pesquisa bibliográfica, documental e entrevistas com alunos do 8º ano do ensino fundamental. Durante as aulas, textos relacionados ao tema foram analisados criticamente pelos estudantes, que elaboraram paráfrases e citações indiretas para articular leituras com reflexões práticas. Os resultados mostram que o racismo persiste em diferentes formas, tanto explícitas quanto implícitas, impactando o futebol e o ambiente escolar. O Flamengo se destaca como símbolo de inclusão e resistência, enquanto as entrevistas apontaram para a necessidade de práticas pedagógicas mais efetivas no combate ao racismo escolar. Conclui-se que a combinação entre esporte e educação pode atuar como ferramenta transformadora no enfrentamento do racismo, contribuindo para uma sociedade mais justa e inclusiva.
Palavras-chave: Racismo, Futebol, Flamengo, Educação Antirracista, Supremacia Esportiva.
ABSTRACT
The article addresses racism as a structural phenomenon manifested in football and the school environment, emphasizing the trajectory of Clube de Regatas do Flamengo and students' perceptions of the topic. The research seeks to answer how these dynamics impact social relations and what strategies can be employed to confront them. The main objective is to analyze manifestations of racism in these contexts, highlighting the role of sports and education in promoting equality and inclusion. The study uses a qualitative approach, based on bibliographic and documentary research, as well as interviews with 8th-grade students. During the classes, texts related to the theme were critically analyzed by the students, who developed paraphrases and indirect citations to articulate readings with practical reflections. The results show that racism persists in various forms, both explicit and implicit, impacting football and the school environment. Flamengo stands out as a symbol of inclusion and resistance, while the interviews highlighted the need for more effective pedagogical practices to combat racism in schools. It is concluded that the combination of sports and education can act as a transformative tool in addressing racism, contributing to a fairer and more inclusive society.
Keywords: Racism, Football, Flamengo, Antiracist Education, Sports Supremacy.
1. INTRODUÇÃO
O presente artigo surge de uma proposta desenvolvida pela turma do 8º ano do CEPI de Aplicação, sob a orientação da professora emérita, Dra. Jaqueline dos Santos Cunha, com o objetivo de investigar o tema "História do Flamengo" foi escolhido pela turma após deliberações e reflexões orientadas sobre sua relevância histórica, social e metodológica.
Durante o processo de delimitação do tema, surgiram conflitos e protestos de alguns alunos, que questionaram sua pertinência social e os caminhos metodológicos a serem seguidos. Apesar das divergências, o tema foi mantido como foco da pesquisa, ressaltando-se sua capacidade de promover reflexões críticas e debates sobre temas estruturais, como o racismo, e a importância do esporte na construção de identidades sociais e culturais.
A busca pela delimitação final do tema envolveu quatro possibilidades apresentadas pelo professor, as quais foram discutidas e votadas pela turma. As opções eram: Silva (2021): Como é a organização financeira do Flamengo? (sem votos); Kowalski (2003): Qual é a ideia essencial para a compreensão ideológica da imagem do clube na sociedade brasileira? (1 voto); Gomes (2022): Há racismo na história do Clube de Regatas do Flamengo? (16 votos); e Galarreta e Lisboa Filho (2013): Como o Flamengo pode evidenciar a identidade e história regional do RJ? (3 votos).
Com ampla maioria, a proposta baseada em Gomes (2022) foi escolhida, guiando a pesquisa para uma abordagem crítica sobre as manifestações de racismo na trajetória do Flamengo. A escolha refletiu o interesse dos alunos em discutir temas relacionados à justiça social e à relevância cultural do esporte na sociedade brasileira.
A partir desse recorte, o artigo organiza-se em torno da análise histórica, social e pedagógica, intercalando investigações bibliográficas e documentais com a percepção de alunos sobre racismo no futebol e no ambiente escolar, integrando esses dois universos em busca de reflexões mais amplas e aprofundadas.
No segundo semestre letivo, o projeto de pesquisa inicial enfrentou manifestações contrárias por parte de alguns alunos, que questionaram a relevância do enfoque no racismo e propuseram uma abordagem mais direcionada à história específica do Flamengo. O projeto foi reorientado para atender aos interesses da turma, mantendo, contudo, a estrutura científica e pedagógica do trabalho.
A pesquisa foi então reformulada com o tema "Evolução do Flamengo no futebol como um dos principais clubes de futebol do Brasil. Com delimitação focada na análise das principais conquistas e títulos do clube. O objetivo geral passou a ser analisar os fatores que contribuíram para o sucesso do Flamengo, com ênfase no orçamento, elenco e patrimônio, ao longo dos últimos anos. A questão-problema foi definida como: Quais foram os principais fatores que contribuíram para o sucesso do Flamengo no futebol?
Os objetivos específicos incluem o estudo do contexto histórico do clube, a análise de campanhas emblemáticas como a da Libertadores de 1981 ou 2019, e a investigação do impacto das conquistas na identidade do Flamengo. A metodologia adotada combina levantamento bibliográfico, estudo de caso, análise de dados financeiros e discussões em grupo. Adicionalmente, entrevistas e depoimentos poderão enriquecer as análises.
Por meio dessa abordagem, a pesquisa busca compreender não apenas a trajetória de vitórias do Flamengo, mas também os elementos que solidificaram sua posição como um dos principais clubes do Brasil e um símbolo de paixão nacional.
Na condição de relatório da pesquisa realizada ao longo de 2024 com os estudantes do 8º ano do ensino fundamental do CEPI de Aplicação de Iporá GO, o presente artigo aborda as relações entre racismo, esporte e educação, com ênfase na análise das manifestações racistas no futebol, no ambiente escolar e na trajetória do Clube de Regatas do Flamengo como símbolo cultural e esportivo. Essas questões são analisadas à luz de eventos históricos e contemporâneos, de práticas pedagógicas e da percepção de estudantes sobre o tema, com o objetivo de contribuir para o debate sobre o combate ao racismo e a promoção da igualdade.
O racismo, enquanto fenômeno estrutural, manifesta-se de diversas formas na sociedade brasileira, incluindo o futebol e as escolas. Neste contexto, a questão que norteia este trabalho é: de que maneira as dinâmicas do racismo no futebol e no ambiente escolar impactam as relações sociais e quais estratégias podem ser empregadas para enfrentá-las?
Parte-se da hipótese de que o racismo no futebol e no ambiente escolar reflete dinâmicas históricas e culturais mais amplas, sendo perpetuado por práticas discriminatórias naturalizadas. Além disso, supõe-se que a abordagem pedagógica por meio de textos e discussões críticas pode ampliar a compreensão e sensibilização dos estudantes para o combate ao racismo.
O objetivo geral desta pesquisa é investigar como o racismo se manifesta no futebol e no ambiente escolar, analisando suas raízes históricas e estruturais e discutindo estratégias educacionais para promover a igualdade e combater discriminações.
Para tanto, como objetivos específicos a pesquisa se serviu de: a) explorar a trajetória histórica do Flamengo como um clube representativo no futebol brasileiro e sua relevância no debate sobre inclusão racial; b) analisar casos específicos de racismo no futebol e suas repercussões sociais; c) identificar e discutir as manifestações de racismo no ambiente escolar com base nas percepções dos alunos; e d) avaliar a eficácia de práticas pedagógicas que estimulam o pensamento crítico sobre o racismo.
Este estudo adotou uma abordagem bibliográfica e documental, complementada por entrevistas realizadas com alunos do 8º ano do ensino fundamental. Durante as aulas, foram apresentados fragmentos de textos pertinentes ao tema, que os alunos interpretaram e analisaram criticamente. Por meio dessa dinâmica, os estudantes elaboraram paráfrases e citações indiretas, articulando as leituras realizadas às reflexões sobre o tema. A metodologia buscou integrar conhecimento teórico, práticas pedagógicas e a experiência dos participantes.
Os resultados revelaram que o racismo é uma questão persistente tanto no futebol quanto no ambiente escolar, sendo reproduzido por práticas discriminatórias explícitas e implícitas. A análise dos relatos dos alunos evidenciou a necessidade de maior suporte institucional e práticas pedagógicas para combater essas manifestações. No contexto esportivo, destacou-se o papel do Flamengo como um símbolo de inclusão e superação, bem como o impacto de episódios históricos e contemporâneos de resistência no futebol.
A revisão literária do artigo está organizada em quatro seções principais: 2.1 Origens Históricas do Flamengo, que apresenta a trajetória do clube e sua relevância cultural; 2.2 Racismo no Futebol e a Luta pela Igualdade, que analisa casos emblemáticos e o papel do esporte na transformação social; 2.3 Racismo no Ambiente Escolar: Relatos e Reflexões, que discute as percepções dos alunos sobre racismo no cotidiano escolar; e 2.4 A Supremacia do Flamengo no Futebol Brasileiro, que aborda os fatores que consolidaram o Flamengo como um ícone esportivo.
2. REVISÃO LITERÁRIA
2.1 Raízes e trajetória histórica do Flamengo
Esta seção tem como objetivo explorar a trajetória histórica do Clube de Regatas do Flamengo, desde sua fundação como um clube de remo até sua consolidação como uma das principais instituições esportivas do Brasil. Por meio da análise de marcos históricos e da construção social de sua identidade, busca-se compreender como o Flamengo transcendeu sua função original, tornando-se um símbolo cultural e esportivo de relevância nacional. Tal abordagem permitirá aos leitores uma visão integrada da evolução histórica do clube, conectando fatos, contextos sociais e transformações culturais ao longo de sua existência.
2.1.1 Origens históricas do Flamengo
O Flamengo foi fundado em 17 de novembro de 1895, inicialmente como um clube de remo, no bairro do Flamengo, Rio de Janeiro. Inspirados no Clube Náutico Faialense, adotaram as cores vermelho e preto. O primeiro troféu conquistado foi a Taça Challenge em 1900. As cores originais azul e dourado foram substituídas pelo vermelho e preto devido à qualidade dos tecidos importados que desbotavam na água (Fontes citadas: Netshoes, Flamengo.com).
O departamento de futebol foi criado em 1911, impulsionado por Alberto Borgerth. Em 1912, o Flamengo estreou no futebol e conquistou o Campeonato Carioca. Nos anos 1940, começou a hegemonia estadual com sete títulos. Na década de 1970, o time, liderado por Zico e outros craques, consolidou-se nacionalmente com o primeiro título brasileiro em 1980 (Fontes citadas: Portal Insights, Extra.globo.com).
Em 1981, o Flamengo viveu seu auge ao conquistar a Libertadores e o Mundial Interclubes, derrotando o Liverpool. Zico foi o grande ídolo dessa época. Em 1987, o clube conquistou o terceiro título brasileiro, reafirmando sua posição no futebol nacional (Fontes citadas: Netshoes, Flamengo.com).
O Flamengo enfrentou instabilidades, mas também colecionou conquistas como o tetracampeonato carioca (1996-1999) e a Copa do Brasil de 1990. O time voltou a brilhar em 2019, ao vencer a Libertadores após 38 anos e o bicampeonato brasileiro. Em 2020, conquistou o heptacampeonato brasileiro e consolidou sua supremacia (Fontes citadas: Flamengo.com.br, Trivela).
O Flamengo é o clube com maior torcida no Brasil, estimada em 46,5 milhões. O mascote, o urubu, foi incorporado após provocações adversárias, transformando-se em símbolo de orgulho. A cultura rubro-negra reflete o estilo de vida do Rio de Janeiro, com paixão inigualável (Fontes citadas: WikiFavelas).
Com mais de 120 anos de história, o Flamengo continua investindo em infraestrutura, categorias de base e profissionalismo. Recentemente, inaugurou instalações modernas, como uma piscina olímpica, destacando-se também em esportes olímpicos (Fontes citadas: Flamengo.com). A trajetória do Flamengo é marcada por conquistas e superação. Com uma torcida apaixonada e constante evolução, o futuro promete mais momentos de glória.
2.1.2 A invenção histórica do Flamengo
KOWALSKI, Marizabel. Por que Flamengo? Rio de Janeiro: Editora Gama Filho,
2003. Disponível em: https://pt.scribd.com/doc/58606102/PQ-Flamengo. Acesso em 8/12/2024.
Conforme Kowalski (2003), a história do Flamengo reflete a polarização entre as abordagens romântica e mercantil do esporte. Desde a transição entre os séculos XIX e XX, o futebol passou a ser um espetáculo de massa, mas sem perder seu apelo romântico. O clube simboliza essa mistura, unindo a profissionalização com a paixão popular e o sentimento de pertencimento dos torcedores.
A modernidade trouxe mudanças no esporte que contradizem uma lógica puramente racional. Elementos como a ritualização de torneios e a imprevisibilidade dos atletas destacam a paixão coletiva envolvida, conforme descrito pelos alunos.
Os escritos de Soares, interpretados pelos alunos, apontam que o esporte moderno tem raízes em narrativas épicas, destacando heróis, provações e triunfos. Esse modelo conecta gerações, reforçando o vínculo entre torcedores e clubes, como o Flamengo, que carrega uma história de superação e glórias.
De acordo com Sevcenko, o esporte se transforma em um espetáculo intenso, equilibrando mecânica e emoção. O Flamengo exemplifica essa combinação com seu impacto cultural e as emoções vivenciadas por sua torcida.
Para os alunos, o Flamengo se consolida como uma instituição que vai além do futebol, carregando tradições criadas e perpetuadas no imaginário coletivo por meio da mídia, música e histórias. O clube simboliza a resiliência e a capacidade de inspirar gerações, algo essencial para sua relevância sociocultural.
2.1.3 A Construção Histórico-Social do Flamengo
De acordo com Kowalski (2003), a fundação do Clube de Regatas do Flamengo, em 1895, está profundamente ligada aos ideais de um grupo de jovens boêmios do Rio de Janeiro, influenciados pela cultura europeia e pelos valores nacionalistas da época. Inicialmente focado no remo, o clube incorporava elementos literários e artísticos que ajudavam a moldar uma identidade cultural brasileira. Nomes de barcos e símbolos remetiam a obras de Tomás Antônio Gonzaga, Gonçalves Dias e José de Alencar, enquanto poetas como Olavo Bilac exaltavam os valores do esporte em crônicas e versos.
O remo, esporte da elite carioca no final do século XIX, desempenhou papel central na formação de clubes e na criação de uma nova mentalidade voltada à valorização do corpo e da saúde. Esse ideal era amplamente difundido por jornais como a Gazeta de Notícias, que publicavam convites irreverentes e poéticos para eventos esportivos e festas, marcando a sinergia entre esporte e lazer como um estilo de vida.
Ainda que o futebol fosse apenas uma novidade à época, o remo era considerado o esporte mais prestigiado, atraindo jovens e consolidando-se como símbolo de progresso e higiene física. Entretanto, o futebol começava a ganhar espaço como uma modalidade capaz de refletir uma nova identidade coletiva, contribuindo para a construção de um sentimento de pertencimento social e cultural. Segundo Bilac, o esporte não apenas fortalecia o corpo, mas também simbolizava um esforço nacional para combater a degeneração física e social.
A partir do remo e do futebol, emerge uma narrativa que conecta a prática esportiva à formação da identidade brasileira. Para Kowalski (2003), esse processo expressa uma ruptura com a mentalidade colonial e a consolidação de uma identidade nacional que abraça os rituais comunitários. Esses elementos, disseminados pela mídia, poetas e cronistas, criaram o alicerce para a popularidade do Flamengo como um clube que vai além do esporte, refletindo uma conexão profunda com as emoções e aspirações do povo brasileiro.
Em meio a essas transformações, surge uma complexa ecologia organizacional no Brasil, com clubes esportivos desempenhando papel fundamental na coordenação de movimentos sociais e culturais. Como aponta Toffler, as interações face a face em espaços comunitários foram cruciais para a criação de um senso de pertencimento coletivo. Assim, o Flamengo não apenas personifica a modernização esportiva, mas também simboliza um marco na luta pela construção de uma identidade nacional inclusiva, mesmo em um contexto permeado por desigualdades sociais e raciais.
A seção destacou os principais marcos da história do Flamengo, desde sua fundação em 1895 como clube de remo até sua consagração no cenário esportivo nacional e internacional. Foram explorados os contextos históricos e sociais que moldaram sua identidade, passando pela adoção das cores vermelho e preto, a transição para o futebol, e a transformação em um ícone cultural brasileiro. Além disso, discutiu-se como o clube reflete uma combinação única de profissionalização, paixão popular e relevância sociocultural. Esses elementos não apenas garantem ao Flamengo um papel central no imaginário coletivo, mas também reforçam sua conexão com os valores e aspirações da sociedade brasileira ao longo de diferentes épocas.
2.2 Racismo no futebol e a luta pela igualdade
A seção aborda as manifestações históricas e contemporâneas do racismo no futebol, explorando sua relação com as estruturas sociais e as lutas por igualdade. O objetivo é investigar como episódios e figuras emblemáticas, como Gerson e Ruud Gullit, refletem e contestam práticas discriminatórias no esporte, além de analisar o impacto do racismo estrutural na trajetória de clubes e jogadores no Brasil e no mundo. Por meio de uma análise multidimensional, a seção busca evidenciar o papel do futebol como espaço de resistência e transformação social, destacando a importância de iniciativas que promovam inclusão e justiça racial.
2.2.1 Reflexões sobre Gerson e Ruud Gullit
RAMOS, Danilo da Silva. Ruud Gullit - Notas sobre a genialidade e militância. In: Ludopédio, v. 143, n. 4, São Paulo, 2021. Disponível em: https://repositorio.ufmg.br/bitstream/1843/60668/2/Ruud%20Gullit%20%e2%80%93%20Notas%20sobre%20genialidade%20e%20milit%c3%a2ncia.pdf. Acesso em 08/12/2024.
De acordo com Ramos (2021), um episódio marcante de racismo no futebol brasileiro ocorreu em 20 de dezembro de 2020, durante uma partida válida pelo Campeonato Brasileiro entre Flamengo e Bahia. O jogador Gerson, do Flamengo, afirmou ter sido chamado de "negro" de maneira pejorativa pelo atleta Ramirez, do Bahia. A situação foi agravada pela declaração do técnico Mano Menezes, que rebateu a reclamação de Gerson com a frase: “Agora virou malandragem?”. O caso teve ampla repercussão, evidenciando que, mesmo nos dias atuais, o racismo ainda é um problema enraizado no futebol.
Esse episódio remete a uma questão mais ampla sobre como atletas, tanto no Brasil quanto no exterior, enfrentam o racismo e se posicionam diante dele. O jogador Ruud Gullit, por exemplo, destacou-se não apenas por sua genialidade no futebol, mas também por sua militância contra a discriminação racial. No final dos anos 1980 e início dos anos 1990, Gullit consolidou sua carreira na Holanda e posteriormente no Milan, onde integrou um dos maiores times da história, junto a jogadores como Paolo Maldini e Marco van Basten.
Além de seu desempenho esportivo, Gullit utilizou sua visibilidade para lutar contra o racismo e o apartheid. Ele é lembrado por gravar a música "South Africa", com uma mensagem antirracista, e por usar dreadlocks, símbolo de resistência negra, em uma época em que esse estilo de cabelo era considerado subversivo por muitos. Gullit também foi impedido de realizar um discurso denunciando o apartheid ao receber a Bola de Ouro em 1987, mas seguiu utilizando sua voz para promover mudanças sociais.
Os exemplos de Gerson e Gullit demonstram que o futebol é mais do que um esporte: é um espaço onde questões sociais, como o racismo, emergem e demandam reflexões e ações. Enquanto episódios de discriminação ainda acontecem, histórias como a de Gullit mostram que o esporte pode ser uma plataforma para resistência e transformação social. Inspirados por figuras como ele, muitos atletas contemporâneos, incluindo jogadores da NBA como LeBron James, têm se posicionado em movimentos como o "Black Lives Matter", provando que a luta pela igualdade transcende fronteiras e modalidades esportivas.
2.2.2 Racismo estrutural e a inserção do negro no futebol brasileiro
GOMES, Tawane Maria Santos. Entre favelados, mulambos e urubus: o racismo na história do Clube de Regatas do Flamengo. Trabalho de Conclusão de Curso de Graduação em História da Universidade Federal de Sergipe. Aracaju: Centro de Educação e Ciências Humanas; Departamento de História, 2022.
O racismo estrutural é uma realidade profundamente enraizada na sociedade brasileira, manifestando-se de diferentes formas e impactando significativamente a vida das populações negras. Desde a antiguidade, o racismo surgiu como resultado de conflitos entre povos, mas ganhou força com as políticas econômicas e culturais que privilegiavam os brancos, especialmente durante o período colonial europeu. Essa estrutura de discriminação perpetuou-se ao longo da história, criando um sistema que desvaloriza pessoas negras e as associa a papéis de servidão ou criminalidade, especialmente na mídia.
A assinatura da Lei Áurea, em 13 de maio de 1888, aboliu a escravidão no Brasil, mas não promoveu a inclusão dos negros na sociedade. Muitos recém-libertos permaneceram sem moradia, emprego ou acesso à educação, sendo vistos como inferiores e marginalizados pela elite branca, que resistia à abolição. A ideia de superioridade branca perpetuava mitos de que os negros eram incompetentes, vagabundos e anticidadãos, reforçando sua exclusão social e econômica.
Esse contexto também se refletiu no futebol, que chegou ao Brasil em 1894 por meio de Charles Miller. Inicialmente praticado pela elite branca e universitária, o esporte excluía operários e negros, que jogavam apenas em terrenos baldios ou nas ruas. Para ser aceito nos grandes clubes da época, não bastava ter talento; era necessário ser branco e de "boa família". Essa exclusão retratava o racismo estrutural da sociedade brasileira, onde a meritocracia era condicionada pela cor da pele.
No entanto, a inclusão dos negros no futebol trouxe mudanças significativas. O Vasco da Gama, em 1923, foi pioneiro ao formar uma equipe composta majoritariamente por jogadores negros, desafiando as normas sociais da época. Por outro lado, clubes como o Flamengo, tradicionalmente associados à elite carioca, resistiram inicialmente à inclusão de jogadores negros. Esse contraste evidenciava as tensões raciais no futebol e na sociedade como um todo.
Estudos como "O Negro no Futebol Brasileiro", de Mário Filho, destacam a luta dos negros por espaço no futebol, enfrentando preconceitos e resistências. Segundo Filho, o racismo no esporte reflete a estrutura social brasileira, mas a presença negra nas equipes trouxe uma nova dinâmica ao esporte, popularizando-o e consolidando sua posição como uma paixão nacional.
Para combater o racismo estrutural, é fundamental promover igualdade de oportunidades e desafiar os discursos que desvalorizam as populações negras. A história do futebol brasileiro, com seus desafios e conquistas, exemplifica como a inclusão e a resistência podem transformar realidades sociais. A luta pela igualdade permanece, tanto dentro quanto fora dos campos, como um esforço contínuo para reparar os danos causados por séculos de exclusão e discriminação.
2.2.3 Compreendendo os conceitos relacionados ao racismo
DEFENSORIA PÚBLICA, Estado do Rio Grande do Sul. Direitos humanos e combate ao racismo. Cartilha. s. d.. Disponível em: https://www.defensoria.rs.def.br/upload/arquivos/201911/11095409-cartilha-combate-ao-racismo-impressao.pdf. Acesso em 08/12/2024.
A compreensão do racismo exige uma abordagem multifacetada, que considere aspectos históricos, culturais e sociais. O conceito de raça, por exemplo, tem origem em uma suposta fundamentação biológica, utilizada para criar hierarquias entre grupos humanos. Contudo, a ciência já demonstrou que essa classificação é inaplicável à espécie humana. Hoje, o termo é entendido como uma construção política e histórica, fundamental para reconstituir a identidade de populações historicamente marginalizadas, como a população negra.
Já a cor refere-se à gradação do tom da pele, frequentemente utilizada como marcador de diferença. Essa diferenciação é carregada de simbologias que associam valores negativos a tons de pele mais escuros. Essa percepção contribuiu para a construção de um inconsciente coletivo que desvaloriza características negras, promovendo a exclusão e o preconceito.
O racismo, segundo o Supremo Tribunal Federal (STF), vai além de características biológicas ou fenotípicas, sendo uma manifestação de poder construída historicamente para justificar desigualdades. Ele se manifesta tanto em atitudes individuais quanto em sistemas estruturais, perpetuando a exclusão social. Historicamente, o racismo está ligado ao tráfico de pessoas negras e à exploração compulsória de sua mão de obra, que ao longo de mais de 400 anos vitimou cerca de 15 milhões de pessoas. Após a abolição da escravidão, estratégias como o branqueamento buscaram apagar a presença negra, perpetuando sua exclusão.
Dois conceitos importantes para entender o racismo são a branquitude e o colorismo. A branquitude é descrita como um sistema de valores que coloca a pessoa branca como modelo universal de humanidade. Por outro lado, o colorismo, desenvolvido pela feminista Alice Walker, aponta para a discriminação baseada na tonalidade da pele, mesmo entre pessoas negras, favorecendo aqueles com pele mais clara.
O racismo estrutural se refere à maneira como práticas e normas da sociedade perpetuam a desigualdade racial de forma sistemática. Ele está presente em instituições, políticas e comportamentos que colocam pessoas negras em desvantagem. Exemplos de ações racistas incluem apelidar pessoas negras com base em características físicas, duvidar de sua competência, inferiorizar seus traços estéticos e desrespeitar tradições de matriz africana.
Expressões populares também refletem o racismo, perpetuando estigmas negativos associados à negritude. Frases como "a coisa está preta" e "denegrir" associam o negro a algo negativo, enquanto termos como "da cor do pecado" sexualizam de forma racista corpos negros.
Compreender esses conceitos é o primeiro passo para enfrentar o racismo. Ele não é um problema individual, mas um fenômeno estrutural que requer ações coletivas para sua erradicação. O desafio está em construir uma sociedade onde todas as pessoas, independentemente de sua cor ou origem, tenham acesso às mesmas oportunidades e sejam respeitadas em sua dignidade.
2.2.4 A AMEA e a exclusão do negro no futebol carioca
GOMES, Tawane Maria Santos. Entre favelados, mulambos e urubus: o racismo na história do Clube de Regatas do Flamengo. Trabalho de Conclusão de Curso de Graduação em História da Universidade Federal de Sergipe. Aracaju: Centro de Educação e Ciências Humanas; Departamento de História, 2022. (pág. 12-14)
A vitória do Vasco da Gama no Campeonato Carioca de 1923, com um elenco predominantemente formado por jogadores negros, provocou uma forte reação dos clubes da elite carioca. Estes, descontentes com o que chamavam de "profissionalismo do futebol", decidiram criar uma nova associação que excluísse as camadas populares. Em 1924, fundaram a Associação Metropolitana de Esportes Atléticos (AMEA), composta pelos clubes Flamengo, Botafogo, Fluminense, América e Bangu, que exigiam requisitos restritivos para adesão, dificultando a participação de times como o Vasco.
A fundação da AMEA é considerada uma das principais evidências do racismo institucionalizado que permeava o futebol carioca na década de 1920. A administração anterior, realizada pela METRA, possuía um caráter mais inclusivo, o que incomodava os grandes clubes. Como alternativa, a criação da AMEA representava um retrocesso às práticas excludentes que privilegiavam a elite branca e restringiam o espaço para jogadores negros e de origem humilde.
Ao tentar se filiar à AMEA, o Vasco da Gama enfrentou a imposição de excluir 12 jogadores negros de seu elenco, sob o pretexto de que eles não atendiam aos critérios estabelecidos pela nova liga. Diante dessa exigência, considerada inaceitável, o presidente do Vasco, José Augusto Prestes, emitiu, no dia 7 de abril de 1924, um ofício que se tornou um marco na luta antirracista. No documento, a diretoria do clube reafirmava seu compromisso com a inclusão, recusando-se a sacrificar seus atletas para atender às regras segregacionistas da AMEA. Prestes declarou: “O ato público que os pode macular nunca será praticado com a solidariedade dos que dirigem a casa que os acolheu.”
O ofício simbolizou a resistência do Vasco contra o racismo estrutural que predominava no futebol carioca e consolidou o clube como um exemplo de luta pela igualdade racial. Essa postura contrastava com a visão elitista da AMEA, que visava restaurar os “bons tempos do futebol”, entendidos como um período em que o esporte era praticado exclusivamente por brancos. Essa batalha não apenas marcou a história do clube, mas também destacou o papel do esporte como espaço de disputa social e política.
A seção destacou como o racismo no futebol reflete dinâmicas sociais mais amplas, explorando episódios históricos e contemporâneos que evidenciam sua persistência, como o caso de Gerson, no Brasil, e a militância de Ruud Gullit, no cenário internacional. Foram analisados conceitos como racismo estrutural, branquitude e colorismo, bem como o papel das instituições esportivas, como a AMEA, na perpetuação da exclusão racial. Além disso, foram apresentados exemplos de resistência, como a postura pioneira do Vasco da Gama na década de 1920, que desafiou práticas segregacionistas. Ao conectar essas narrativas à luta por igualdade, a seção reforça o potencial do futebol como um campo de disputa social, onde questões como justiça, inclusão e direitos humanos podem ser promovidas e debatidas.
2.3 Racismo no ambiente escolar: relatos e reflexões
Esta seção tem como objetivo investigar as percepções e experiências dos alunos do 8º ano relacionadas ao racismo no ambiente escolar, com foco em como essas situações afetam as relações interpessoais, o bem-estar emocional e o sentimento de pertencimento dos estudantes. Por meio da análise de relatos coletados em entrevistas, busca-se identificar os desafios enfrentados pelas vítimas de racismo, as reações da comunidade escolar e as lacunas nas respostas institucionais a essas práticas discriminatórias. Além disso, a seção apresenta reflexões sobre possíveis estratégias para promover a igualdade racial no ambiente escolar, contribuindo para a construção de uma educação mais inclusiva e antirracista.
No dia 12 de junho de 2024, foi realizada uma entrevista com os alunos do 8º ano para compreender suas percepções e experiências relacionadas ao racismo no ambiente escolar. A análise dos relatos evidencia a presença de discriminação racial entre os alunos, a forma como as situações são enfrentadas e a resposta institucional a essas questões. A seguir, apresentamos as principais reflexões sobre o tema.
Quando questionados sobre experiências de racismo no cotidiano escolar, a maioria dos alunos relatou já ter presenciado ou vivido situações de racismo na escola. Entre os episódios narrados, destacaram-se ofensas verbais, como chamar colegas de "macaco", "preto", "suco de asfalto" ou "pó de tapioca". Alguns estudantes relataram que as vítimas muitas vezes aceitam os apelidos para preservar amizades, enquanto outros demonstraram incômodo e tristeza com as agressões. Apesar de alguns alunos relatarem que essas práticas são tratadas com naturalidade por parte de quem as perpetra, há relatos de dor e indignação por parte das vítimas e dos que presenciam as ofensas.
Infelizmente, algumas vítimas de racismo optaram por não compartilhar suas experiências, mesmo em um contexto anônimo, indicando o impacto emocional e a dificuldade em expor situações traumáticas. Essa hesitação também reflete o medo de represálias ou de serem ainda mais marginalizadas.
Quando questionados sobre as reações e apoio no enfrentamento do racismo, as reações às situações de racismo variaram. Alguns alunos apoiaram colegas que foram vítimas, enquanto outros optaram por ignorar ou até rir das situações, perpetuando a naturalização das agressões. Houve também relatos de alunos que sentiram medo de intervir, preocupados com a possibilidade de se tornarem alvos de discriminação.
A falta de apoio por parte de colegas e professores foi apontada como uma questão relevante. Muitos alunos relataram não se sentir amparados ou perceber que as vítimas não recebiam suporte adequado. Essa ausência de resposta efetiva por parte da comunidade escolar reforça a sensação de isolamento das vítimas e contribui para a perpetuação do problema.
Quando questionados sobre as percepções sobre tratamento diferenciado, evidenciaram que não há diferenças no tratamento de alunos de diferentes raças pelos professores. No entanto, alguns apontaram que professores, assim como alunos, também podem apresentar comportamentos discriminatórios, embora isso seja menos explícito. A interação entre alunos de diferentes raças foi descrita como "normal" por alguns, mas outros relataram que apelidos racistas são comuns e que as vítimas muitas vezes se acostumam a essas práticas para evitar conflitos.
Quanto à abordagem da história e da cultura de diferentes grupos raciais no currículo escolar, as opiniões foram divergentes. Alguns alunos consideraram que a escola aborda adequadamente o tema, enquanto outros avaliaram que o conteúdo ainda é superficial e que há falta de representatividade de culturas específicas, como as orientais.
Sobre possíveis mudanças para promover a igualdade racial na escola, as sugestões incluíram maior fiscalização contra práticas racistas, organização de debates semanais para discutir experiências de discriminação, promoção de palestras e eventos educativos sobre o racismo e a inclusão de atividades que fomentem o respeito e a empatia entre os alunos.
A análise das entrevistas revela que o racismo está presente no ambiente escolar, seja de forma explícita, por meio de ofensas e apelidos, seja de maneira implícita, em relações de poder e exclusão. A falta de ações assertivas para enfrentar o problema perpetua a sensação de normalidade e indiferença em relação às práticas discriminatórias.
Além disso, muitos alunos demonstraram dificuldade em identificar ou compreender a gravidade de atitudes racistas, o que reforça a importância de um trabalho contínuo de conscientização e educação antirracista. É necessário que a escola amplie o espaço para discussões sobre racismo, promova o acolhimento das vítimas e adote medidas concretas para combater atitudes discriminatórias. Somente assim será possível transformar o ambiente escolar em um espaço de respeito e igualdade para todos.
A seção revelou como o racismo se manifesta no cotidiano escolar, tanto de maneira explícita, por meio de ofensas e apelidos pejorativos, quanto de forma implícita, nas dinâmicas de exclusão e nas lacunas no suporte institucional. Os relatos dos alunos evidenciaram o impacto emocional dessas práticas discriminatórias, bem como a naturalização de comportamentos racistas em alguns contextos. Também foram destacadas as limitações nas ações de enfrentamento do racismo por parte da comunidade escolar e as percepções divergentes sobre a abordagem do tema no currículo. Por fim, foram apresentadas sugestões para transformar o ambiente escolar em um espaço de respeito e igualdade, reforçando a necessidade de um compromisso contínuo com a educação antirracista e o acolhimento das vítimas como passos fundamentais para combater o racismo e promover uma convivência harmoniosa.
2.4 A supremacia do Flamengo no futebol brasileiro
A seção examina os elementos que consolidaram o Flamengo como o principal clube do futebol brasileiro, com foco em sua supremacia financeira, administrativa e esportiva. Com base em dados históricos e contemporâneos, a análise abrange desde a força econômica do clube e sua gestão financeira inovadora até os títulos expressivos que alicerçam sua trajetória de sucesso. Além disso, a seção discute o impacto de ícones como Zico na construção de sua identidade, destacando como o Flamengo transcendeu as barreiras esportivas para se tornar uma referência de excelência e inspiração no cenário nacional e internacional.
Apesar das barreiras impostas pelo racismo estrutural e social, o Flamengo se consolida como o clube de maior evidência nacional. Essa trajetória de sucesso é sustentada por três pilares fundamentais: o crescimento financeiro (orçamento e patrimônio), a conquista de títulos expressivos e o protagonismo de jogadores que marcaram época.
2.4.1 A força econômica do Flamengo
O Flamengo é um dos clubes mais ricos e estruturados do Brasil, tendo alcançado marcos financeiros impressionantes ao longo da última década. Em 2023, o clube registrou uma receita de R$ 1,374 bilhão, consolidando-se como líder em arrecadação no país. Essa receita se deve, principalmente, a contratos de patrocínio robustos, direitos de transmissão e vendas de ingressos, além do apoio de sua apaixonada torcida.
O patrimônio líquido do Flamengo também se destaca, chegando a R$ 1,3 bilhão em 2023, uma evolução significativa desde 2014. O clube investiu consistentemente em infraestrutura e em contratações de alto impacto, criando uma base sólida para sustentar sua competitividade em níveis nacional e internacional.
Comparativamente, o Flamengo supera outros grandes clubes brasileiros em termos de orçamento, como Palmeiras, São Paulo e Atlético Mineiro, o que reflete sua capacidade de atrair investimentos e administrar recursos de maneira eficaz. Essa vantagem econômica permitiu ao clube não apenas formar elencos competitivos, mas também investir em infraestrutura e em projetos sociais, ampliando seu impacto dentro e fora dos gramados.
O Flamengo conta, com fontes de receita, os direitos de transmissão que são responsáveis por boa parte do faturamento, especialmente em campeonatos nacionais e internacionais. Ainda, os patrocínios que são parcerias com marcas como Adidas, Mercado Livre e BRB garantem um fluxo contínuo de receita. E a bilheteria e sócio-torcedor, pois com uma das maiores torcidas do mundo, o Flamengo arrecada cifras significativas em dias de jogo e com programas de fidelidade.
O Flamengo possui o elenco mais valioso do Brasil, avaliado em 163 milhões de euros (R$ 845 milhões), o que o coloca no 49º lugar global em investimentos no futebol. Nos últimos anos, mesmo diante de adversidades como a pandemia de COVID-19, que reduziu receitas em 2020, o Flamengo demonstrou resiliência financeira, adaptando-se e retomando sua trajetória de crescimento.
2.4.2 Gestão financeira e a sustentabilidade econômica do Flamengo
A trajetória do Flamengo não se destaca apenas dentro de campo, mas também nos bastidores de sua gestão financeira. Nos últimos anos, o clube rubro-negro consolidou-se como uma das instituições esportivas mais bem administradas no Brasil, com uma série de ações que proporcionaram superávit financeiro, redução de dívidas e um patrimônio líquido robusto. Esses fatores asseguram a sustentabilidade econômica do clube e seu protagonismo no cenário esportivo nacional e internacional.
Em 2022, o Flamengo registrou um superávit de R$ 320 milhões, refletindo o impacto positivo da retomada dos estádios lotados e a volta dos jogos presenciais após os anos críticos da pandemia de COVID-19. Esse resultado permitiu ao clube reduzir sua dívida em 79%, de R$ 227 milhões para apenas R$ 48 milhões. A significativa quitação de R$ 179 milhões em dívidas foi possível graças à disciplina financeira, à elevação das receitas e à manutenção de um alto saldo em caixa, superior a R$ 200 milhões ao longo do ano.
A redução do endividamento operacional não apenas fortaleceu a posição financeira do Flamengo, mas também reforçou sua reputação como uma organização confiável e bem gerida, facilitando novas parcerias e investimentos. No início da década passada, a dívida do clube se aproximava de R$ 800 milhões, mas, com políticas financeiras sólidas, o clube conseguiu transformá-la em um passivo gerenciável.
O Flamengo também se destacou pela elevação de seu patrimônio líquido, que alcançou R$ 335 milhões em 2022, um valor recorde. A importância de um patrimônio líquido positivo vai além da contabilidade; ele é essencial para a tomada de decisões financeiras informadas e para garantir a transparência das operações do clube. Um patrimônio sólido proporciona segurança e estabilidade, permitindo que o Flamengo invista em talentos esportivos, infraestrutura e projetos sociais.
A gestão financeira do Flamengo oferece lições importantes para o futebol brasileiro. Entre as principais estratégias estão o controle rigoroso de gastos, a busca por receitas recorrentes e o investimento em infraestrutura e talentos esportivos. Essas ações garantem a saúde financeira do clube e criam um círculo virtuoso que atrai patrocinadores e novos torcedores.
O desempenho esportivo, por sua vez, impacta diretamente as finanças. Títulos conquistados em competições de alto nível trazem visibilidade internacional, maior valorização de jogadores e o interesse de grandes marcas para patrocínios. Assim, o Flamengo assegura não apenas a sua posição de destaque no futebol, mas também a perenidade de sua marca.
O sucesso econômico do Flamengo é resultado de uma combinação de fatores, incluindo a gestão responsável das dívidas com redução contínua de passivos históricos. Ainda, diversificação de receitas com direitos de transmissão, patrocínios e programas de sócio-torcedor. Os investimentos estratégicos com contratações de alto impacto e fortalecimento da infraestrutura. Para completar, manutenção de saldo em caixa, pois o clube termina os períodos fiscais com liquidez suficiente para novas aquisições e quitação de obrigações financeiras.
Com base nessas práticas, o Flamengo tornou-se um modelo de gestão esportiva no Brasil, demonstrando que, além de conquistas em campo, a organização administrativa é fundamental para a longevidade de qualquer clube. A combinação de resultados financeiros e esportivos reafirma o status do Flamengo como uma potência do futebol nacional.
2.4.3 Transformações na gestão do flamengo e o impacto no desempenho financeiro
O Clube de Regatas do Flamengo experimentou, nos últimos anos, uma significativa transformação em sua gestão administrativa e financeira. Com práticas centradas em contenção de gastos, pagamentos de dívidas e transparência, o clube redefiniu seu modelo de administração, garantindo não apenas sua saúde financeira, mas também consolidando sua posição de destaque no mercado esportivo brasileiro e internacional.
A adoção de práticas mais profissionais e transparentes foi um marco para o Flamengo. Essas mudanças incluíram a reorganização das finanças, com foco na eliminação de dívidas históricas. Em 2014, o clube foi premiado como "Melhor Gestão de Clubes do Brasil" e recebeu o título de clube mais transparente do país. Além disso, sua marca foi avaliada em aproximadamente R$ 347 milhões, consolidando-se como a mais valiosa do futebol brasileiro.
O modelo de gestão implementado pelo Flamengo, com foco em economia e controle de despesas, serviu como exemplo para outros clubes. Em 2015, segundo Balassiano, o clube adotou uma abordagem rigorosa na administração financeira, evidenciando um compromisso com o profissionalismo e a sustentabilidade econômica.
Os esforços de gestão do Flamengo não passaram despercebidos. A valorização da marca rubro-negra reflete diretamente no prestígio e na força econômica do clube. Além de ser reconhecido como uma referência em gestão esportiva, o Flamengo também fortaleceu sua presença no mercado, atraindo patrocinadores, investidores e novos torcedores.
A importância de uma gestão eficaz é evidenciada pelo aumento contínuo das receitas do clube. Em 2022, o Flamengo alcançou uma receita recorde de R$ 1,374 bilhão e reduziu suas dívidas em 79%, passando de R$ 227 milhões para apenas R$ 48 milhões. Esse desempenho proporcionou um superávit de R$ 320 milhões, destacando o clube como uma potência financeira no cenário esportivo.
A experiência do Flamengo oferece valiosas lições para outros clubes de futebol com uma gestão profissional com a devida transparência e o controle financeiro são cruciais para a longevidade e o sucesso de qualquer organização esportiva. Ainda, contenção de gastos com a redução de despesas desnecessárias e o pagamento de dívidas garantem estabilidade a longo prazo. E valorização da marca com uma boa gestão reflete diretamente no prestígio do clube, atraindo investimentos e consolidando a fidelidade dos torcedores.
Além disso, o clube mostrou que a busca pela excelência esportiva deve estar alinhada à sustentabilidade financeira. O sucesso do Flamengo em campo, combinado com a solidez de sua administração, contribui para sua posição de liderança no futebol brasileiro e global.
A gestão do Flamengo passou por uma verdadeira revolução, transformando desafios financeiros em oportunidades de crescimento. Com um modelo de administração profissional e transparente, o clube não apenas superou dívidas históricas, mas também se destacou como referência em gestão no futebol. Esse exemplo ressalta que, no esporte, o equilíbrio entre desempenho em campo e responsabilidade financeira é o caminho para o sucesso sustentável.
2.4.4 Principais conquistas do Flamengo
O Flamengo, ao longo de sua história, consolidou-se como um dos principais clubes de futebol do Brasil e da América Latina, acumulando conquistas expressivas em competições nacionais, internacionais e regionais. Cada torneio disputado pelo clube possui um histórico que reflete a evolução do futebol brasileiro e a crescente relevância do clube no cenário esportivo.
Criada em 1989, a Copa do Brasil surgiu com o objetivo de oferecer visibilidade a clubes de menor expressão e integrar estados menos tradicionais no futebol ao cenário nacional. O formato da competição é baseado em duelos eliminatórios (mata-mata), garantindo emoção e confrontos diretos. Desde sua criação, o Flamengo participou de diversas edições, conquistando o título em quatro oportunidades: 1990, 2006, 2013 e 2022. Em outras cinco edições, o clube foi vice-campeão, destacando sua consistência no torneio. Adversários como Goiás, Corinthians e São Paulo marcaram as campanhas mais emblemáticas, e jogadores como Gabigol se destacaram como artilheiros.
O Campeonato Brasileiro foi consolidado em 1971, mas o formato atual de pontos corridos só foi implementado em 2003. Antes disso, o torneio seguiu modelos diversos, como mata-mata e fórmulas mistas. O Flamengo conquistou o Brasileirão oito vezes: 1980, 1982, 1983, 1987 (Copa União), 1992, 2009, 2019 e 2020. A década de 1980 foi especialmente marcante, com quatro títulos conquistados, alavancados pela atuação de craques como Zico. As campanhas de 2019 e 2020, sob o comando do técnico Jorge Jesus, simbolizaram uma era de domínio e excelência tática no futebol nacional.
A Copa Libertadores, principal torneio de clubes da América do Sul, foi criada em 1960 para reunir os melhores clubes do continente. O Flamengo ergueu o troféu três vezes: em 1981, 2019 e 2022. A edição de 1981 foi inesquecível, com Zico comandando o time rumo à vitória sobre o Cobreloa do Chile. Em 2019, Gabigol foi o protagonista, marcando dois gols decisivos na final contra o River Plate, enquanto a conquista de 2022 solidificou o Flamengo como uma potência do futebol sul-americano.
A Copa Intercontinental, precursora do atual Mundial de Clubes da FIFA, foi conquistada pelo Flamengo em 1981, em uma vitória histórica por 3 a 0 contra o Liverpool, da Inglaterra. O título coroou uma geração de ouro liderada por Zico e é lembrado como um marco na história do clube.
Além dos títulos mencionados, o Flamengo conquistou o Torneio Rio-São Paulo em 1961, a Copa dos Campeões em 2001, e a Recopa Sul-Americana em 2020. Esses torneios reforçam a trajetória de sucesso do clube em competições de diferentes formatos e níveis de importância. No cenário estadual, o Flamengo detém o recorde de 37 títulos do Campeonato Carioca, destacando-se como uma potência regional.
Ao longo das edições, o Flamengo enfrentou desafios técnicos, administrativos e adversários de alto nível. Campanhas memoráveis foram marcadas por partidas decisivas, artilheiros brilhantes e atuações históricas. O legado dessas conquistas é representado pelo impacto positivo na torcida, o reconhecimento internacional e o fortalecimento da marca Flamengo como uma das mais icônicas do futebol mundial.
O Flamengo, um dos clubes mais vitoriosos do futebol brasileiro, consolidou sua posição de destaque no cenário nacional e internacional através de inúmeras conquistas. Desde a fundação de sua equipe de futebol em 1912, o clube alcançou feitos históricos que marcaram sua trajetória e cativaram milhões de torcedores.
O Flamengo se destacou no cenário internacional ao conquistar a Copa Intercontinental (Mundial de Clubes da FIFA) em 1981, após vencer o Liverpool, em um confronto memorável. Além disso, o clube possui três títulos da Copa Libertadores da América (1981, 2019, 2022), consolidando-se como um dos maiores campeões sul-americanos. Outras conquistas incluem a Copa Mercosul (1999), a Copa Ouro (1996) e a Recopa Sul-Americana (2020).
No Brasil, o Flamengo acumula um impressionante número de títulos no Campeonato Brasileiro Série A, com oito conquistas em anos como 1980, 1987 (Copa União) e 2019. Também é tetracampeão da Copa do Brasil (1990, 2006, 2013, 2022) e bicampeão da Supercopa do Brasil (2020, 2021). A histórica vitória no Torneio Rio-São Paulo de 1961 e a conquista da Copa dos Campeões em 2001 reforçam a relevância do Flamengo no cenário nacional.
No âmbito estadual, o Flamengo é o maior vencedor do Campeonato Carioca, com 38 títulos entre 1914 e 2024, além de ter triunfado em torneios como o Torneio Início e a Taça Guanabara. Essas conquistas são celebradas como demonstrações do domínio do clube no Rio de Janeiro.
Entre outras honrarias, destacam-se a vitória na Copa dos Campeões Mundiais (1997), um marco na trajetória internacional do clube, e torneios amistosos como o Torneio Internacional de Verão do Rio de Janeiro (1996, 1997). A rica história de conquistas é também representada por torneios históricos como a Copa Rio Internacional de 1952.
Cada conquista do Flamengo carrega uma combinação de talento, estratégia e paixão. Ídolos como Zico, Gabigol, e Arrascaeta foram decisivos em campanhas históricas, enquanto técnicos como Jorge Jesus e Dorival Júnior desempenharam papeis fundamentais em momentos vitoriosos. Os triunfos impactaram profundamente sua torcida, tornando o Flamengo uma referência de sucesso e inspiração para o futebol brasileiro.
Com esse vasto repertório de títulos e momentos memoráveis, o Flamengo não apenas marcou o futebol, mas também construiu um legado que continua a emocionar e a inspirar gerações.
2.4.5 A lenda do Futebol brasileiro
EWALD, Elizeu. Zico. Documentário. Publicado em 25/10/2002. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=XRwS8keM3Bc. Acesso em 08/12/2024.
Arthur Antunes Coimbra, mais conhecido como Zico, nasceu em 3 de março de 1953, e é amplamente reconhecido como um dos maiores jogadores da história do futebol mundial. Ícone do Flamengo, Zico personifica talento, dedicação e paixão pelo esporte, marcando para sempre o futebol brasileiro e internacional.
Zico ingressou no Flamengo aos 13 anos e rapidamente destacou-se pela habilidade técnica e visão de jogo. Sua dedicação envolvia uma rotina árdua que combinava estudos, treinos e academia. Durante sua trajetória no clube, conquistou 15 troféus e 13 títulos, incluindo a icônica Copa Intercontinental de 1981, na qual liderou o time em uma vitória histórica contra o Liverpool. Na ocasião, foi eleito o melhor jogador do torneio, recebendo o troféu que coroou a geração de ouro do Flamengo.
Zico teve uma passagem marcante pela Udinese, da Itália, entre o segundo semestre de 1983 e o primeiro semestre de 1985. Embora não tenha conquistado títulos pelo clube italiano, deixou um legado com atuações brilhantes, sendo tratado como atacante em diversas matérias de jornais da época e recebendo elogios por seu desempenho.
Zico foi o eterno camisa 10, um capitão exemplar e referência de liderança em campo. Sua habilidade única com a perna esquerda rendeu diversos gols decisivos ao longo de sua carreira. Além disso, carregou o legado de grandes jogadores brasileiros ao usar a camisa 10 que já havia pertencido a Pelé. Seu último jogo profissional marcou o fim de uma era para o futebol brasileiro.
Ao longo de sua carreira, Zico ergueu taças emblemáticas, como a Taça do Atlântico (1976), a Copa Rio Branco (1976), a Taça Oswaldo Cruz (1976), o Torneio Bicentenário dos EUA (1976) e a Taça Brasil-Inglaterra (1981). Ele é até hoje uma inspiração para gerações de jogadores e torcedores.
Zico é mais do que um jogador; é um símbolo do futebol brasileiro. Sua liderança, habilidade técnica e contribuições para o esporte o tornaram uma lenda viva. À medida que completou 70 anos, em março de 2023, Zico permaneceu uma referência de excelência e amor pelo futebol, consolidando sua posição como o maior ídolo da história do Flamengo e uma das maiores personalidades do futebol mundial.
A seção abordou os principais fatores que consolidaram o Flamengo como uma potência no futebol brasileiro e internacional. Destacaram-se a força econômica do clube, alicerçada por uma gestão financeira exemplar e um patrimônio robusto, que permitiram investimentos estratégicos em infraestrutura e contratações de impacto. Além disso, foram exploradas as transformações administrativas que garantiram a sustentabilidade econômica e alavancaram a marca Flamengo. No campo esportivo, as inúmeras conquistas em competições nacionais e internacionais reafirmaram a supremacia do clube, enquanto a trajetória de ícones como Zico ilustrou a importância de talentos excepcionais na construção de sua identidade. A combinação de excelência administrativa, desempenho esportivo e impacto cultural reforça o legado do Flamengo como um dos maiores clubes da história do futebol.
3. MATERIAL E MÉTODOS
A pesquisa foi conduzida como um estudo bibliográfico e documental, complementado por entrevistas realizadas com os alunos do 8º ano do ensino fundamental para investigar a percepção e as experiências relacionadas ao racismo no ambiente escolar. Não foram realizados experimentos empíricos, mas a abordagem metodológica incorporou estratégias que promoviam a participação ativa dos estudantes e o desenvolvimento de habilidades críticas.
Durante as aulas, o professor selecionou e apresentou fragmentos de textos pertinentes aos temas explorados no artigo, incluindo o racismo no futebol, o racismo estrutural e o impacto sociocultural do Flamengo. Esses textos, extraídos de fontes bibliográficas e documentais, foram lidos e interpretados pelos alunos, que realizaram atividades de síntese a partir da análise do material. Essas sínteses foram construídas ora respondendo a perguntas específicas, ora desenvolvendo análises mais aprofundadas, com o objetivo de aprimorar a compreensão dos conteúdos.
Os alunos também elaboraram paráfrases e construíram citações indiretas com base nas leituras realizadas, articulando os conceitos apresentados nos textos com suas próprias reflexões e interpretações. Essa prática não apenas contribuiu para responder à questão-problema da pesquisa e alcançar os objetivos específicos, mas também estimulou a capacidade de interpretação crítica, o diálogo entre as leituras e as experiências vivenciadas, e o desenvolvimento da autonomia intelectual.
As entrevistas realizadas com os alunos sobre a existência do racismo no ambiente escolar complementaram a pesquisa, permitindo a coleta de dados qualitativos que enriquecem a discussão do tema. Por meio desse processo, buscou-se integrar as reflexões teóricas e práticas pedagógicas à experiência dos estudantes, promovendo uma análise mais completa e contextualizada dos fenômenos abordados no estudo.
4. RESULTADO E DISCUSSÃO
Os resultados desta pesquisa, fundamentados em uma abordagem bibliográfica, documental e empírica por meio de entrevistas, apontaram para a relevância de temas como racismo estrutural, sua manifestação no futebol e no ambiente escolar, e o papel sociocultural do Flamengo como um ícone de resistência e transformação.
Com base nas análises bibliográficas, verificou-se que o racismo no futebol, longe de ser um problema isolado, reflete as dinâmicas estruturais de discriminação presentes na sociedade brasileira. A obra de Ramos (2021) destacou episódios como o caso do jogador Gerson, que evidenciou o racismo persistente nas relações interpessoais e na narrativa esportiva. Em paralelo, a análise sobre Ruud Gullit revelou como atletas podem usar sua visibilidade para contestar estruturas discriminatórias, como demonstrado em suas ações contra o apartheid.
Estudos como os de Gomes (2022) trouxeram à tona a segregação histórica no futebol brasileiro, especialmente por meio da exclusão de jogadores negros por organizações como a AMEA. A resistência de clubes como o Vasco da Gama consolidou-se como um marco de luta pela inclusão racial, contrastando com práticas excludentes predominantes. A análise crítica desses episódios reforça a ideia de que o futebol é um espaço tanto de reprodução de desigualdades quanto de contestação e transformação social.
As entrevistas realizadas com os alunos do 8º ano permitiram compreender a profundidade do racismo no ambiente escolar. Relatos de discriminação verbal e atitudes naturalizadas evidenciam como o racismo é perpetuado de maneira explícita e implícita nas interações diárias. Expressões pejorativas, como as mencionadas pelos alunos, revelam não apenas o impacto emocional nas vítimas, mas também a necessidade urgente de ações educativas antirracistas.
Os resultados também destacaram a ausência de suporte adequado por parte da comunidade escolar, reforçando o isolamento das vítimas e a normalização do problema. Essa lacuna na resposta institucional exige uma abordagem pedagógica mais incisiva, que inclua debates regulares, palestras e atividades que promovam a empatia e o respeito.
No contexto do Flamengo, o estudo bibliográfico e documental destacou como o clube transcendeu barreiras históricas para consolidar sua posição de protagonismo. Fontes como Kowalski (2003) e Gomes (2022) elucidaram o papel do Flamengo na transformação da identidade nacional por meio do esporte. A análise dos pilares que sustentam sua supremacia – força econômica, gestão financeira e conquistas esportivas – revelou a importância da profissionalização e do investimento estratégico para o sucesso do clube.
Por outro lado, a trajetória de Zico, como descrito no documentário de Ewald (2002), ilustra como figuras individuais podem encarnar valores de liderança, superação e paixão, contribuindo para o fortalecimento de instituições esportivas e culturais. A presença de jogadores negros em sua história reforça a narrativa do Flamengo como um espaço de inclusão, embora tenha enfrentado desafios significativos ao longo de sua trajetória.
Os resultados reforçam a necessidade de conectar as práticas educacionais às reflexões trazidas pelo esporte. Durante as aulas, o trabalho com textos, interpretações críticas e paráfrases estimulou os alunos a articular conceitos teóricos com suas vivências, promovendo um olhar mais atento e crítico sobre o racismo. O modelo adotado mostrou que a integração entre leitura, reflexão e prática é eficaz para sensibilizar os estudantes sobre questões sociais, como o racismo.
Ao explorar temas como o racismo no futebol e na escola, os alunos desenvolveram uma compreensão mais ampla da relação entre as dinâmicas estruturais e as experiências individuais, reconhecendo o papel transformador do conhecimento crítico. Isso reforça a importância de estratégias educacionais que aliem práticas pedagógicas ao debate social, estimulando a formação de cidadãos conscientes e engajados.
Os resultados desta pesquisa destacam que, tanto no esporte quanto na escola, o combate ao racismo exige um esforço contínuo e multidimensional. O Flamengo, como um símbolo cultural e esportivo, e o ambiente escolar, como espaço de formação, oferecem exemplos de como a resistência e a educação podem transformar estruturas de exclusão. Ao conectar essas esferas, a pesquisa contribui para o debate sobre como a educação crítica e a cultura esportiva podem atuar juntas na promoção de igualdade e justiça social.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este estudo abordou as intersecções entre racismo, esporte e educação, com foco na análise de manifestações discriminatórias no futebol e no ambiente escolar, bem como na trajetória do Flamengo como um ícone cultural e esportivo. A pesquisa, fundamentada em análises bibliográficas, documentais e entrevistas com alunos, permitiu compreender como o racismo é reproduzido e desafiado em diferentes contextos.
No futebol, evidenciou-se que o racismo vai além de atitudes individuais, sendo uma manifestação de estruturas históricas de exclusão, como demonstrado pelos episódios envolvendo Gerson e a segregação institucional da AMEA. Contudo, figuras como Ruud Gullit e o clube Vasco da Gama ilustram como o esporte pode ser uma plataforma para resistência e transformação social, inspirando ações em prol da igualdade racial.
No ambiente escolar, os relatos dos alunos destacaram a prevalência de práticas racistas, tanto explícitas quanto implícitas, e a falta de suporte adequado por parte da comunidade escolar. Essas experiências reforçam a necessidade de estratégias pedagógicas que promovam a empatia, o respeito e a educação antirracista, criando um ambiente mais inclusivo e acolhedor para todos os estudantes.
A trajetória do Flamengo, por sua vez, demonstrou como o esporte pode transcender suas fronteiras e se consolidar como um elemento integrador na construção da identidade nacional. Por meio de sua supremacia esportiva, financeira e cultural, o clube exemplifica como a combinação de profissionalismo, talento e gestão eficiente pode romper barreiras e inspirar gerações.
A pesquisa também evidenciou o papel da educação na promoção de reflexões críticas e no combate ao racismo. As práticas pedagógicas implementadas, como leitura de textos, elaboração de paráfrases e discussões coletivas, mostraram-se eficazes para estimular a interpretação crítica e o engajamento dos alunos com questões sociais relevantes.
Por fim, conclui-se que a luta contra o racismo exige um esforço integrado entre educação, esporte e sociedade. Apenas por meio de ações contínuas e multidimensionais será possível transformar estruturas discriminatórias e promover uma convivência baseada em respeito, igualdade e justiça social. O esporte e a escola, como espaços de formação e transformação, desempenham um papel essencial nesse processo, contribuindo para a construção de um futuro mais inclusivo e equitativo.
6. REFERÊNCIAS
DEFENSORIA PÚBLICA, Estado do Rio Grande do Sul. Direitos humanos e combate ao racismo. Cartilha. s. d.. Disponível em: https://www.defensoria.rs.def.br/upload/arquivos/201911/11095409-cartilha-combate-ao-racismo-impressao.pdf. Acesso em 08/12/2024.
EWALD, Elizeu. Zico. Documentário. Publicado em 25/10/2002. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=XRwS8keM3Bc. Acesso em 08/12/2024.
GALARRETA, Jorge Francisco Puente Arnao; LISBOA FILHO, Flavi Ferreira. Identidade e história das equipes de futebol e os reflexos nas transmissões esportivas. In: BOCC. Publicado em 29 de janeiro de 2013. Disponível em: https://www.bocc.ubi.pt/texts/galarreta-lisboa-filho-2013-01-30.pdf. Acesso em 08/12/2024.
GOMES, Tawane Maria Santos. Entre favelados, mulambos e urubus: o racismo na história do Clube de Regatas do Flamengo. Trabalho de Conclusão de Curso de Graduação em História da Universidade Federal de Sergipe. Aracaju: Centro de Educação e Ciências Humanas; Departamento de História, 2022. (pág. 12-14)
KOWALSKI, Marizabel. Por que Flamengo? Rio de Janeiro: Editora Gama Filho,
2003. Disponível em: https://pt.scribd.com/doc/58606102/PQ-Flamengo. Acesso em 8/12/2024.
RAMOS, Danilo da Silva. Ruud Gullit - Notas sobre a genialidade e militância. In: Ludopédio, v. 143, n. 4, São Paulo, 2021. Disponível em: https://repositorio.ufmg.br/bitstream/1843/60668/2/Ruud%20Gullit%20%e2%80%93%20Notas%20sobre%20genialidade%20e%20milit%c3%a2ncia.pdf. Acesso em 08/12/2024.
SILVA, Jade Oliveira da. A política de marketing e o crescimento financeiro do Clube de Regatas do Flamengo. Trabalho de Conclusão de Curso de Ciências Contábeis. Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro, Faculdade de Administração e Ciências Contábeis, 2021. Disponível em: https://pantheon.ufrj.br/bitstream/11422/18235/1/JOSilva.pdf. Acesso em 8/12/2024.